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Revista Estúdio 50
Número 03 | Ano 1 | Julho de 2021
36 páginas


Nesta edição:

  • Taís Bravo entrevista Adelaide Ivánova
  • O obituário delas, por Felipes André Silva
  • Essa cabeça não é minha, por Camila Assad
  • Dois poemas traduzidos de Warsan Shire por Laura Assis


Editorial

Nas últimas páginas de Chifre, Adelaide Ivánova, em forma de notas, percorre o processo de produção do livro, defendendo, em certo ponto, que esse trabalho se deu, como a própria vida, entre a vontade de morrer e a vontade de estar viva. Esse é também um dos temas que aparece na entrevista realizada esse mês no Estúdio 50, na qual Taís Bravo conversa com a poeta sobre seu novo livro, seus trabalhos anteriores e futuros, e a existência de uma poética hesitante entre as coisas, a vida e seus nomes. O formato em que a entrevista aparece nessa revista deixa ver sua tópica: o entreato, o recorte, a impossibilidade de dar conta de toda a fala em um espaço limitado em tempo e recursos.

Estar imerso no mundo atual é muito semelhante a isso: não uma forma de vencer a morte, mas uma busca por superar o mutismo, e escrever a partir dele seus próprios diagnósticos. Sabemos que usar o silêncio como também a fala é um dos empreendimentos do poético — contornar as coisas das quais não falamos, chamá-las por nomes que, muitas vezes, inventamos. E justamente assim nos colocam no mundo: a partir de palavras, nomes, diagnósticos que nos foram inventados, como um significante primeiro que acaba coagindo mais do que descrevendo. Fundando e inventando identidades.

Tomar a experiência traumática e tentar contorná-la a partir da linguagem é o que propõe Camila Assad nos fragmentos que apresentamos do seu novo livro, Essa cabeça não é minha. Com a violência e a descoberta de um mundo após ter um diagnóstico clínico instaurado sobre si, Camila apresenta textos ágeis, densos e cortantes que trabalham a tensão entre estar louca e sã, sempre viva e sempre à beira da morte.

Esse movimento entre a vida e a morte, como bem defendem Adelaide Ivánova e Taís Bravo, é também puro desejo e pulsão. É, em suma, estar vivo. Tensionando essas paralelas, Felipe André Silva abre a edição com um obituário íntimo e, ao mesmo tempo, outro. No texto, nos deparamos com uma personagem que, após abandonar o antigo apartamento, se vê concomitantemente morta e gozando para sempre no mundo dos vivos. Mesmo assim, gozar é sempre além, nunca nesse mundo.

Ainda pensando a linguagem e seus meios para dizer o que precisamos (ou não), Laura Assis nos apresenta dois poemas da queniense Warsan Shire, os quais traduziu do inglês para sua língua materna. É interessante lermos, nesse intercâmbio de idiomas, não somente os procedimentos poéticos de Laura Assis, mas também os temas tão particulares como estrangeiros que se inscrevem nas duas versões dos textos.

Já disseram certa vez que a linguagem é uma casa, como também que ela só atinge sua máxima potência quando é incendiada. Então, como numa casa em chamas, trazemos a vocês mais um número da Estúdio 50. Sejam bem-vindos e tanham uma ótima leitura.

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