[Casa de Barro n.1] Cabeça de cavalo - Mariano Alejandro Ribeiro


Há todo um ambiente místico construído em Cabeça de cavalo, livro de estreia do poeta Mariano Alejandro Ribeiro no Brasil. Há algo do místico, mas também, sobretudo por isso e vice-versa, há algo que perpassa os deslocamentos e os encontros. Há um cavalo estendido no campo, selvagem e sem metafísica, que abre o livro e caminha, cavalo como um xamã, nas pequenas metafísicas das coisas. 

Talvez isso também diga o bastante da ideia de livro-convite que fizemos ao Mariano no meio do último ano. Como já se anunciava no Antes da Iluminação (Lisboa: Mariposa Azual, 2016) e nas colaborações em revistas virtuais por aqui e por lá, Cabeça de cavalo retoma a experiência dos cortes e experimentações em flashes do poeta, cortes esses com consciente zelo estético. Em uma das últimas revisões que Mariano fez do livro, antes de fechar a versão final, muitos poemas voltaram praticamente "esquartejados", como é o caso de "A passagem dos dias no céu da boca" (p.28), que de um grande bloco prosaico se tornou uma peça na qual o espaçamento e os saltos em versos dão nova respiração e frescor à composição.

Antes um pouco dos corte final vieram as fotografias. No fim no ano passado, quando ainda não sabíamos que o livro seria parte dessa coleção que agora se apresenta, o poeta nos enviou uma série de fotos que, segundo ele, foram feitas na mesma época e no mesmo ímpeto do livro, para a possibilidades de as usarmos no miolo. A ideia não foi levada adiante, principalmente para não comprometer a qualidade das imagens, mas as trazemos agora a público.






Ainda quando o livro não estava planejado a ser a primeira casa dessa coleção, convidamos a escritora Ana Paula El-Jaick (de quem lançaremos Tríptico ainda esse ano) para compor uma apresentação para ele. O resultado, que não está na versão final, pode ser conferido a seguir.


Se isso aqui não é uma apresentação
Ana Paula El-Jaick
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“Cabeça de cavalo”, primeiro poema que dá nome a este segundo livro de Mariano Alejandro Ribeiro, poeta argentino radicado em Portugal, começa assim: “o cavalo um animal único / é / o verso que ninguém leu”. O livro Cabeça de cavalo começa assim: dizendo a que veio. E continua assim: revelando a nós um jovem poeta (“Sou novo é normal que escreva poesia”, como diz um dos versos de seu primeiro livro, Antes da iluminação) de mãos maduras. É dessa forma que os primeiros versos de “Celebração de Santo Amaro” podem ser entendidos também no que tange à compreensão de Mariano do fazer poético: “Que eu saiba / E li tudo com muita atenção”. A poesia de Mariano mostra que ele leu mesmo tudo com muita atenção, demonstrando um enorme conhecimento literário. De fato, as múltiplas referências literárias, que já proliferavam nas páginas de seu livro de estreia Antes da iluminação, compõem aqui polifonias no mínimo interessantes, com Finnegans Wake (“Finge-te finnegans ao despertar”, em um verso de “Sei”), passando por Verlaine, Rimbaud, T. S. Eliot, Walt Whitman... etc. – chegando a se apropriar de “fotografei você na minha rolleiflex” (poema “Vou”), da conhecida canção de Tom Jobim. 
Essa polifonia aparece nos poemas de Mariano até em tom divertido, por exemplo, transformando a rosa de Gertrud Stein em lobo, no poema “Wolf is a wolf is a wolf is a wolf”. O lobo, aliás, é um signo pertencente à paleta do poeta Mariano – neste livro, o lobo volta quando outro poeta, Miguel-Manso, que dá nome a um belo poema, já chega avisando: “serei breve […] / fui viver com os lobos”. Contudo, para decepção de Manso, os lobos não se aperceberam que ele era um deles. 
Esse jogo intertextual de Mariano se consubstancia de modo engenhoso em “Casa ocupada” – se o leitor também conferir seu livro Cartas em fuga para cravo e Drá, a ser lançado em breve em Portugal, verá que então Mariano não só cria composições com outros poetas, como também dialoga consigo próprio. Aqui em Cabeça de cavalo, “Casa ocupada” é um poema de cinco versos divididos em duas estrofes que acabam por advertir o leitor: “Não te enganes / Uma casa em ruínas / Ainda é uma casa”. No poema “Drá”, a “casa ocupada” se povoa de “pós-modernistas” que fazem “um empréstimo vantajoso […] / Pra viver nas ruínas deles / Pra viver das ruínas deles”. 
Outro exemplo de diálogo – diálogo, creio, não monólogo – que Mariano encena entre este e seu livro Carta em fuga... é a reutilização do belo (antigo) provérbio japonês “Um sutra ao ouvido de um cavalo”. Dessa maneira, o poeta reafirma a combinação polifônica em que sua voz se duplica, fazendo um dueto que amarra sua obra num laço coeso, mais um traço de sua precoce maturidade. 
A beleza também dá as caras em “Poema ameríndio”, um dos mais sublimes de Cabeça de cavalo. Nele, somos apresentados a “Um rapaz peruano de boné”, um dos muitos personagens que povoam os versos de Mariano. “Poema ameríndio”, também como muitos outros poemas da obra do poeta, pode ser entendido como um poema-narrativo. Na narrativa do “Poema ameríndio”, somos conduzidos por esse personagem, o rapaz peruano de boné, até que o poeta-narrador o perde de vista, num bar, numa atmosfera em que nós mesmos nos sentimos meio bêbados. Finalmente um dia o poeta-até-então-narrador recebe um “postal e sabia de quem era / E apenas assinava / Poema ameríndio”. O mise en abyme se insinua: o próprio poema é transubstanciado em postal – e nosso narrador é, agora, personagem do rapaz peruano de boné.
Mariano é um poeta que desconfia da permanência. Se nada garante que o sol nascerá novamente amanhã, no poema “Y si acaso no Brillara el Sol”, o poeta afirma que “Só as tuas mãos trazem os frutos / Da permanência”. O tema é retomado por Mariano em seu livro a ser lançado em breve em Portugal, o já mencionado Carta em fuga para cravo e Drá. Naquele, a certa altura o poeta escreve: “Não salivo com os frutos da permanência”. Sabedoria de quem sabe existir, porque o tempo (se) consome, e é preciso calma – o poeta, lá como aqui em Cabeça de cavalo, não conhece a azáfama.
A dúvida em relação à permanência insiste no admirável poema “Se isto aqui não é um prado”: “Decerto um amanhecer claro / O homem nu sai da cama / E abre as persianas / Da varanda / Com trezentos pássaros para nos recordar / Que nada do que temos é / Assim tão permanente”. Este poema acontece entre a pergunta “Se isto aqui não é um...”, entre o abrir as persianas e o voltar para a cama do personagem. É nesse meio tempo que o poema acontece: com o poeta-flâneur flanando pelas ruas de Lisboa, “No Rossio”, ouvindo jazz, mostrando outro do gosto de nosso poeta-narrador – a estrada. Trata-se de um poeta-narrador que nos (desen)caminha caminhos afora.
Para o leitor que vai, agora, se aventurar pelas estradas de Mariano, já garanto um final feliz: o livro se encerra de forma magistral, com um haiku, forma bastante explorada pelo poeta em seu primeiro livro, mas que, aqui, só aparece no finalzinho, para se despedir de nós, sem drama: “Passou o tempo / Nos olhos do cavalo / Apenas o fim”. É o “Haiku último”, que só não nos deixa na espera do que esse Mariano ainda nos prepara, porque ele já nos mostrou. Afinal, ao fim da leitura de Cabeça de cavalo, tem-se a prazerosa impressão de que Mariano é desses poetas que têm sempre, qual um Raskolnikov, não uma machadinha, mas um desconcertante verso escondido na algibeira.


Cabeça de cavalo, de Mariano Alejandro Ribeiro
Casa de Barro n.1
2017, 52 páginas
ISBN: 978-85-93715-00-6