[Casa de Barro n.3] Casa dos ossos - Prisca Agustoni


Apresentação

por Stefano Raimondi

Nem sempre a casa é o lugar da segurança, do refúgio; a soleira além da qual o mundo acontece independentemente dela. Nem sempre a casa é sinônimo de “lar”, de compartilhamento e de descanso. Muitas vezes, ela é o limiar, a posição estática de um “estar dentro” forçado, de um dividir o espaço e o tempo de um destino coeso.

A partir dessas primeiras observações é possível entrever as paredes de Casa dos ossos – que Prisca Agustoni arquitetou com intensidade para uma nova coletânea de poemas – onde é significativo o modo como, à superfície de tal lugar, a poeta (suíço-italiana residente entre a Suíça e o Brasil) faz corresponder uma territorialidade do corpo e do coração. Mas os lugares são lares, espaços onde deixar gravitar e circular a temporalidade da própria passagem, da própria maneira de partilhar a vida com as coisas que a envolvem com hospitalidade, que a tornam vivível.

No entanto, as mesmas paredes podem se tornar também perímetros de uma margem que constrange, impede, prende. E a partir daqui começam as conjecturas da libertação, da maceração: as camadas subversivas da evasão, os sinais imperceptíveis do testemunho de uma dor. É a partir dessa perspectiva que Prisca Agustoni opera, através de uma palavra/linguagem carregada de corporeidade e sensualidade, encarnando emoções e tempos, instaurando um diálogo sempre tendido entre a palavra falante e sua maneira de ser pele, membro, respiro. O corpo – que desde o título é contido no termo “osso” – se torna, portanto, o personagem/caráter principal do texto. Um corpo como centro de uma peregrinação mental e emotiva no território do amor para um “tu” que aparece obsessivamente, qual “alter-ego” de uma escuta, qual signo de alteridade e presença sempre sofrida/gozada por proximidade e jamais por real conhecimento. A linguagem aqui é antropomórfica em todos os seus aspectos – sintáticos e metafóricos – mas também seletiva e escassa, assim como seletivos e escassos são os versículos bíblicos dos quais, sem dúvida, a autora deve lembrar na sua fase criativa e inspiradora. 

Já em coletâneas anteriores essa tensão bíblica está presente, mas nesse trabalho maduro seu expor-se é decididamente mais controlado e eficaz. O seu lirismo oscila entre a doçura e a agressão, entre a doação e o rapto. A autora parece estabelecer com o verso um acordo de salvação, no qual a compreensão passa primeiro pelos olhos e depois pela mente. Poemas que têm, portanto, um forte impacto visual, e sobre essa camada Prisca Agustoni equilibra o inteiro tom da coletânea.

Nesse sentido, Casa dos ossos é o resultado de uma composição unitária e poética capaz de revelar quanto o corpo pode se tornar também uma das territorialidades à disposição do poeta, para indagações e descobertas reveladoras/catárticas, através do qual os mapas que se anunciam deixam entrever os eixos centrais de uma rede muito densa de sentimentos. Em Casa dos ossos surge uma realidade que tem residência/ cidadania no corpo: se compreende, pois, o quanto a corporeidade está na realidade relacionada às camadas mais profundas da linguagem: aquelas que o poeta usa/diz para encarnar-se/expor-se. 

A palavra faz-se, portanto, o lugar de um perambular pelo mundo/pela casa, poeticamente. Há sempre referências metapoéticas nos poemas de Agustoni, nos quais o binômio corpo/palavra são ponte e margem ao mesmo tempo de uma busca existencial impregnada por um peculiar e pudico pathos. De fato, seu fazer poético está tensionado entre uma transparente necessidade espiritual do dado – que a envolve – e a tensão do desejo que toma conta dela, deixando-a perplexa. Existe, nesses versos, uma delicadeza própria e, ao mesmo tempo, uma terrível força de sublimação. Parece que estamos assistindo a um contínuo dueto entre a poesia amorosa da italiana Gaspara Stampa1 e a palavra desencantada e cândida de Emily Dickinson. Carne e mundo, pele e pensamento se alternam nas palavras cristalinas de Prisca Agustoni, deixando que a luz das penumbras module o seu quieto/inquieto escrever, sua voz, percebida de quarto em quarto. Uma voz que reenvia às cantilenas das súplicas e das rezas que, celanianamente, ecoam num canto, numa oferenda de luz apoiada pela sombra, pela dor. 



Em Prisca Agustoni o gesto do olhar é singular: carrega consigo o ato da apropriação e da possessão. Pontos de vistas, esses, que tornam sua poesia um exemplo equilibrado de androginia escritural tão cara a Virginia Woolf. De fato, a autora sabe como servir-se de termos cruentos para dizer a doçura das palavras poéticas, escolhendo imagens antropofágicas para nos dizer o quanto custa a verdadeira compreensão/apropriação/nutrição dos versos. O Eros passa pela poética de Agustoni como numa bulímica trajetória sobre a qual se projeta o próprio horizonte de expectativa, o próprio “virar a página” em nome de uma dor, de um acontecimento que faz mudar as coisas. O corpo, de fato, volta sempre como prova singular de uma passagem de existência, como um verdadeiro testemunho ocular. Um testemunho que quer ser centro de alianças entre palavras/corpos que saibam ecoar e que sejam uma tradução de alguma coisa ou de alguém que fale a linguagem do mundo.

Imagens e situações giram, em Casa dos ossos, ao redor de poucas, mas incisivas palavras e visões-chave, como por exemplo: dentes, unhas, carne, lençóis. Esse termo, lençóis, em particular, aparece muitas vezes na coletânea; um lençol como santo sudário, um lençol arcaico, um linho simbolizando a pureza; mas também como tecido que separa, que esconde e mortalmente encobre os corpos dos que não resuscitaram à luz do possível. Uma claridade, essa, que estigmatiza situações que roubam o nome à fábula e suas aventuras, transportando o leitor para dentro de um mundo onírico, como numa pintura de Chagall. 

Essa é uma poesia que supre seu afastamento da terra-mãe/ língua materna com dignidade e estilo, lançando-se numa espécie de versificação bíblica mais próxima à quebra do salmo que à melodia de um verso somente cantado. Uma poesia enxuta que se carrega, passo a passo, de energia reflexiva. De fato, o que torna coesa a coletânea, na sua totalidade, é a noção de projeto que a subentende, e que se torna clara no seu andamento, o mesmo que sempre caracterizou o trabalho da autora, mesmo em coletâneas anteriores. Prisca Agustoni é herdeira de uma sólida matriz poética e a partir desse molde desenvolve o seu percurso de procura e de expressão. Isso lhe permite, em Casa dos ossos, criar uma poesia/corpo que não tem ventre nem sangue, mas osso e respiro. Um verso que procura/encontra sua correspondência na territorialidade da camada emotiva e com ela compartilha o pudor do testemunho: o pudor de quem diz sempre a última palavra exata, a mesma que condena ou absolve. 

Milão, agosto de 2010
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1 Poeta italiana do Renascimento, autora de um cancioneiro amoroso de natureza autobiográfica.

Stefano Raimondi é poeta e filósofo italiano, autor, dentre outros, dos livros La città dell’orto (Casagrande, 2002), Interni con finestre (La Vita Felice, 2009) e Per restare fedeli (Transeuropa, 2013).


Casa dos ossos, de Prisca Agustoni
Casa de Barro n.3
2017, 60 páginas
(2ª edição em breve)